Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



Amor, este adorável inimigo

Martha Medeiros

Se formos analisar as letras das músicas e as páginas da literatura que falam de amor, acredite, encontraremos mais sofrimento do que prazer.

Thomas Mann escreveu: “Aquele que ama mais é inferior e tem que sofrer”.

Rilke: “O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação”.

Nelson Rodrigues: “Todos odiamos o amor”.

Talvez isso explique Billie Holiday, que cantava: “Não me ameace com amor, baby / vamos só caminhando na chuva”.

Ameaçar com amor, veja só. Como se o amor fosse algo que nos aprisionasse, como se fosse uma fonte inesgotável de dor, como se ele tivesse o poder de desestruturar nossa vida. E tem, raios.

Se formos analisar todas as letras de música e toda a literatura que trata sobre o amor, encontraremos muito mais sofrimento do que prazer. Já foi dito que o amor é uma enfermidade, e não faltam testemunhas para dizer que ele faz mais mal do que bem. Por que tudo isso? Porque ela acaba. Porque depois de todo o idílio vivido, um dos parceiros abandona o barco. Raros são aqueles que chegam até o final da viagem juntos.

E, como todos que já sofreram na pele sabem, nunca estamos preparados para lidar com o fim. Temos uma dificuldade crônica de aceitar interrupções.

Roberto Carlos até hoje revela em entrevista que nunca mais amará alguém além de sua Maria Rita, que faleceu em 1999. Ele não quer se abrir para um novo amor, não pretende nem tentar. Optou por viver na saudade. Se acaso sentir-se atraído por outra mulher, será como se estivesse traindo a ex.

Parece enfermidade, realmente.

Nas célebres Cartas Portuguesas de Mariana Alcoforado, encontramos 15 vezes a expressão “ai de mim”. Escrevia ela: “amo-te mil vezes mais do que à minha vida”.

Agonia, desespero, ciúmes, incertezas. Não é isso que costumamos assistir nos comerciais de tevê no Dia dos Namorados, mas é isso que narram poemas e canções. Até em blogs a gente encontra farta descrição das agruras causadas por amores que não deram certo.

Pois bem: todo amor dá certo. Inclusive, e talvez especialmente, os que duram para sempre, a maioria esmagadora. São estes amores que nos ensinam sobre nós mesmos, que nos colocam em contato com nossas emoções eletrizantes e justificam nossa existência. O segredo para sobreviver a esse massacre emocional é aceitar os finais, os unhappy ends, sempre entendendo que isso faz parte do pacote. E a dor passa – ou se transforma. Roberto Carlos, com tanto potencial e vocação para o amor, está se desperdiçando nesta entrega obcecada pela solidão. Ninguém vai tirar dele o que ele já viveu.

Ai de mim, ai de você, ai de todos nós se o amor deixar de nos ameaçar.


Domingo, 13 de junho de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.